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Guarapuava: Por amor à história

Guarapuava: Por amor à história

Tão antigo quanto o surgimento de Guarapuava, no início do século 19, é o gosto de muitas famílias locais, em especial nas regiões rurais, de preservar e relembrar tradições religiosas, sociais e culturais. E se no campo esta vivência até hoje é natural, marcada por festas tradicionais ou até pelo resgate de antigas tropeadas, também na cidade vários têm sido os nomes que se voltam a conhecer o passado, seja por uma inclinação pessoal, seja também por sua formação acadêmica, destacando-se na produção de livros ou trabalhos sobre a trajetória histórica deste rincão paranaense.

Um deles chegou a criar um espaço, aberto à comunidade, para o acervo de antigos documentos reunidos por seu pai. Guarapuavano nato, filho de Benjanin C. Teixeira e de Alvina Walter Teixeira, nascido em 12 de janeiro de 1937, formado em Odontologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1963, Murilo Walter Teixeira, após se aposentar, passou a se dedicar em tempo integral àquele legado de família, colocando em primeiro lugar o entusiasmo de compartilhá-lo com todos os interessados. Com o mesmo empenho, também se engajou em várias iniciativas culturais, tornando-se membro do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de Guarapuava e daAcademia de Letras, Artes e Ciências (ALAC) de Guarapuava, além de ser associado do Sindicato Rural de Guarapuava desde 1980 – quando a entidade, fundada em 1967 e hoje com mais de cinco décadas, tinha então apenas 13 anos de existência.

Num momento difícil para o mundo, devido à pandemia, mas no qual a cultura segue sendo importante, a REVISTA DO PRODUTOR conversou com Teixeira sobre seu apreçopor preservar e divulgar o material histórico que herdou.

Ele recebeu nossa reportagem, na tarde de 3 de fevereiro, no local que se tornou seu principal projeto: a Casa Benjamin C. Teixeira (residência de sua família),situada na Rua Capitão Virmond, nº 1.888, numa área central de Guarapuava onde se avista ainda outras construções antigas, a casa guarda as principais linhas de um estilo que, por si só, já inspira a pensar no passado.

Teixeira começou destacando o resultado de uma dedicação que, em seus cálculos, já dura cerca de 30 anos: “ACasa se consolidou, em 2008, com a denominação de Casa Benjamin C. Teixeira. Foi um aproveitamento do arquivo histórico dele, o início dessa documentação que conseguimos reunir”, disse, referindo-se a seu pai. E prosseguiu: “Quandoinstalamos a Casa,me preocupei em transformá-la num museu histórico. Então, participei de alguns conclaves, alguns no estado do Paraná, na Secretaria de Cultura, no sentido de manter um estreito relacionamento com a preservação desses documentos históricos”.
Nesta mesma direção, elerecordou outro passo importante: “Estamos inscritos na Museologia Brasileira, temos lá nosso nome e mantemos constantemente a correspondência. Nóstambém comemoramos a Semana Nacional dos Museus, no mês de maio. Então, sempre estamos executando algum trabalho, alguma pesquisa –através de banners, de palestras, divulgando –sempre ligados a algum tema histórico de Guarapuava”.

Em paralelo a eventos que ocorrem em ocasiões pontuais, Teixeira, desde 2008, vem divulgando o acervo da casa também por meio de outra ação: a produção dos Boletins, que abordam algum aspecto histórico de Guarapuava e região. Redigidas, formatadas e impressas por ele mesmo, as publicações, que reconhece terem uma aparência simples, trazem, no entanto, um pouco da riqueza de detalhes dos diversos documentos antigos, que por sua vez refletem momentos do surgimento do município: “O Boletim representa alguma coisa, algum documento histórico, alguma informação que eu possuo aqui. Então, me permito colocá-los nesses boletins, que propiciam aos pesquisadores ampliarem aquele tema”, explica.

Consciente de que o estudo da história abrange uma ampla gama de detalhes e de descobertas, que por sua vez ocorrem ao longo do tempo, através de novos achados e novas formas de olhar o passado, o responsável pela Casa Benjamin C. Teixeira faz questão de sublinhar esta particularidade deste campo do saber: “Lógico, eu não faço todo o Boletim. Não se extingue ali, o assunto. Cabe ao pesquisador ampliar. Mas dou uma feitura do que aconteceu e do que possuo de documento histórico. Documentos originais, que estãoarquivados aqui.Revistas, jornais.E, dentro desses (boletins), estão incluídas (partes de) algumas publicações de trabalhos de pesquisa histórica dos professores, trabalhos científicos universitários”. Segundo acrescentou, como tempo, a Casa passou a ser buscada como fonte de informação por quem decidiu seguir a trilha da história através dos caminhos da vida acadêmica: “Tenho sido procurado por aqueles que estão envolvidos numa pesquisa histórica sobre assunto atinente a Guarapuava. Então, tenho o prazer de informar, de fornecer os subsídios para esse trabalho científico universitário”.

Com isso, o balanço destes anos de atuação na divulgação de seu acervo de documentos, Teixeira considera como positivo:“Exerci minha profissão de odontologia por 30 anos. Uma vez aposentado, e como eu tinha esse material iniciado pelo meu pai – razão pela qual dou o nome da casa de Benjamin –, montei esse escritório, com todas as documentações, mapas, jornais antigos, enfim, tudo aquilo atinente a esse tema”.

Receber quem o procura em busca de um documento histórico é para ele uma alegria: “Sim, sem dúvida”, declara, especificando que quase sempre se trata de pesquisa sobre a cidade e outros municípios da região, como Pinhão, Goioxim e até Foz do Iguaçu.

Ele rememora que a maior cidade do centro-sul paranaense ostentava, em seus primórdios, um vasto território e que justamente esta enorme área faz com que haja muito a se conhecer sobre a vida daqueles que aqui viveram e os ciclos históricos regionais: “Guarapuava ia até as barrancas do rio Uruguai.Então, imagine. O tema é muito palpitante e muitos fatos ocorreram em todos esses anos. A cidade ficou um pouco pertinente a uma região, não tendo participado da Farroupinha, do Contestado.Mas teve a sua função primordial que era povoar os Campos de Guarapuava segundo o nosso Imperador”.

Com um olhar que se volta igualmente para o seu próprio tempo, Teixeira considera que novas ferramentas de comunicação e divulgação extremamente atuais, como as redes sociais, vêm ajudando a tornar conhecidos não só os fatos de agora, a notícia imediata que acabou de ser transmitida pela mídia, mas também os acontecimentos históricos: “O Facebook tem proporcionado bastante divulgação e nós temos pessoas aqui de Guarapuava divulgando constantemente fotos antigas, fotos familiares, temas atinentes à nossa história”, concluiu, com a sabedoria de quem compreende que o presente também oferece possibilidades de se preservar o passado para as gerações futuras.

 

A Casa Benjamin C. Teixeira

Residência da família de Murilo Walter Teixeira, a Casa Benjamin C. Teixeira foi construída em 1885 e há anos é um museu particular localizado na Rua Capitão Virmond, nº 1888, no centro de Guarapuava. O nome foi dado por ele em homenagema seu pai, que deixou um acervo de documentos históricos. Além daquele material, encontram-se no local fotos antigas, nas quais é possível ter uma idéia de Guarapuava em especial no início do século XX.

O espaço está aberto a estudantes, pesquisadores e ao público que se interessa pela história da cidade e da região – A visitação é realizada com agendamento prévio (42 3623 2072). Assim como os demais museus localizados no município, a Casa consta da lista de museus brasileiros do Museusbr. Criado pela Portaria nº 6, de 9 de janeiro de 2017, o Museusbr é o sistema nacional de identificação de museus e plataforma para mapeamento colaborativo, gestão e compartilhamento de informações sobre os museus brasileiros.

 

Boletins: simplicidade repleta de detalhes

Entre as atividades da Casa Benjamin C. Teixeira, está a publicação de seus Boletins. Neles, Murilo Walter Teixeira enfoca aspectos da história local e regional, com base no acervo da Casa e em outras fontes. Já na edição de nº 1 (2008), ele rememora as trajetórias de nomes ligados aos primórdios de Guarapuava e da região, como Afonso Botelho, Cândido Xavier de Almeida e Souza, Pedro Aloys Scherer e Antônio Lustosa de Oliveira.Para conhecer mais sobre Botelho, Teixeira foi a Portugal, onde esteve no Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa) e Palácio de Mateus (cidade de Vila Real).

Em seus demais números, os boletins têm destacado assuntos como o Formal de Fundação da Freguesia de Nª Sª de Belém, de 9 de dezembro de 1809; síntese histórica de Guarapuava; prefeitos do município; Guarapuava nos anos 50 – industrialização; Guarapuava nos anos 30; o teatro e o cinema em Guarapuava; Jean Maurice Faivre e a Colônia Tereza Cristina; a revolução federalista; Rio Jordão e Rio Iguaçu, entre vários outros.

 

Participações em eventos locais alusivos à Semana dos Museus

Conforme relembrou Murilo Walter Teixeira ao conversar com a REVISTA DO PRODUTOR RURAL, uma de suas atividades frente à Casa Benjamin C. Teixeira tem sido participar (de 2011 a 2019) de eventos locais alusivos à Semana dos Museus. Para as ocasiões, ele detalhou que apresenta banners, destacando algum aspecto histórico, ou palestras. Com isso, esteve presente em programações promovidas, apoiadas ou sediadas em instituições como Centro de Artes, Colégio Imperatriz, Unicentro e Faculdade Guairacá, Academia de Letras, Artes e Ciências (ALAC) e Instituto Histórico de Guarapuava (IHG).

A Semana de Museus é uma iniciativa anual e de âmbito nacional coordenada pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), ressaltando a data do Dia Internacional dos Museus (18 de maio). Conforme divulga o IBRAM em seu site, desde a primeira edição, a participação dos museus tem aumentado em média 25% e o total de eventos cadastrados, 23%. Àqueles que se engajam na iniciativa, cabe a realização de suas programações culturais. Ao instituto, a divulgação da programação nacional. A cada edição, o tema da iniciativa é escolhido pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM). Em 2021, a 19ª edição da Semana tem por tema “O futuro dos museus: recuperar e reimaginar” e está prevista para o período de 17 a 23 de maio. Mas devido à pandemia, o IBRAM orienta que os eventos sejam feitos on-line.

 

 

 

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